" Era Natal. Psicólogo achou que não precisava de voltar a vê-lo. O Pai que costumava ser presente começou a ser ausente. Quando procurava a sua presença ou apenas lhe telefonava as nossas conversas restringiam-se a ‘Olá’, ‘tudo bem?’ e ‘A que horas vens para casa?’. Na altura queria tirar a carta de mota. Andava com um fascínio doido por Scooters, Vespas! Andava in love. Sempre que queria confrontar o Pai, ele não estava disponível, Andy. Eu procurava o carinho dele, a atenção dele, a sua voz, o seu calor humano para que tudo o que tinha acontecido recentemente fosse ultrapassado com êxito. Andy, a Mãe notava a tristeza que eu sentia na ausência do Pai e um dia, ela confrontou-o. Estava no meu quarto e ouvia os gritos, vozes entrecortadas e sabia que era por minha causa. Decidi ir defender a Mãe e ia a descer a escadaria quando ouço o Pai a dizer com uma voz carregada de amargura, dor e sofrimento: Mary, tu traíste-me! Não podes pedir que esqueça ou que me habitue! Peço desculpa se não consigo dar atenção á Catherine e isso deve-se talvez, hm … ao facto de me teres traído com o meu melhor amigo e talvez porque ando a afundar-me no trabalho para que isto funcione! Não é fácil, Mary! Amo-te e amo incondicionalmente a nossa filha mas não é fácil! - Tropecei numa ponta saliente de um degrau das escadas e acabei por descer o resto de uma vez, caindo muito mal. Fiz grande estrondo e quando reparei estava nos braços do Pai e sentia o seu coração a bater fortemente junto do meu e lembro-me de sentir os meus olhos a ficar húmidos e dizer: Vai ficar tudo bem. Eu tenho a certeza! – Acordei num quarto de Hospital. Felizmente, foi uma queda simples mas muito aparatosa. Naquelas cadeiras super desconfortáveis, encontrava-se o Pai a dormir. Olhei-o demoradamente e senti a sua dor, senti a dor da traição. Senti-me também eu traída pela Mãe, Andy. Depois de tudo, a Mãe traiu-nos. Entretanto, recebo uma carta inesperada, Andy. Tinha conhecido um rapaz que frequentou o mesmo psicólogo que eu. Encontrava-o sempre ao sair do Consultório aquando era a minha vez de entrar. Apenas trocamos olhares até que um dia, ele entregou-me um papel com o seu número de telemóvel. Lembro-me bastante bem deste dia. Cheguei a casa com um sorriso diferente e a Mãe reparou. Contei-lhe e ela mesma enviou-lhe uma mensagem. Fiquei fula e super envergonhada com a lata dela! Mas logo lhe agradeci pois eu sabia que não ia ter coragem de lhe enviar a mensagem. A carta era dele, Andy. Não sei como é que ele soube o que me aconteceu mas gostei do gesto. Talvez um dia escreva aqui um excerto retirado da carta dele. Vasco, era e é o nome dele, Andy. Não a li no Hospital. Logo, nesse dia voltei para casa e os Pais falaram comigo na sala. Fez me lembrar as primeiras sessões com o psicólogo: Filha, assim que me disseste aquilo antes de ires para o Hospital, percebi que tinhas ouvido a nossa conversa. Antes demais, é feio ouvir as conversas dos Adultos! Logo, interrompi e resmunguei, Ahah, Pai tenho 15 anos. E este assunto também me diz respeito. Vocês são meus pais! Não quero que se separem! e uma lágrima preparava-se já para descer e sabia que depois desta iria ser como se fosse uma cascata e por isso, contive-me. Filha, a Mãe lamenta o que aconteceu! Eu não queria, juro-te mas estava a ser tão difícil lidar contigo e depois em vez de procurar abrigo na família, fui cometer um erro terrível que nunca mais aconteceu mas que foi o que bastou para dilacerar a minha relação com o teu pai! Fiquei estupefacta. A Mãe culpou-me e eu, furiosa, exclamei, Só podes estar a gozar comigo! A culpa é minha, é isso? Eu, tua filha, empurrei-te para a cama de outro Homem, foi!? Não podes culpar-me! Nem te atrevas a tentar fazê-lo outra vez! Respirei fundo e olhei o Pai. Ele estava absorto, pensativo mas não estava ali pelo menos a cabeça dele viajava para fora daquela casa e logo de seguida, mudou a sua expressão e transmitiu-me um olhar que transbordava horror como se tivesse visto algo que não devia ter visto: Pai, tu apanhaste a Mãe em pleno acto, não foi?, e apenas disse com dificuldade: Como …? – E apenas o olhei com pena e compaixão pois também me sentia traída. Instalou-se, depois daquele momento, um silêncio bastante perturbador que provocou que, eu visiona-se na minha mente a cena toda, o filme todo mas logo depressa acordei para a realidade devido á voz do Pai: O que interessa é a família e Catherine é o que tu precisas mais neste momento por isso estou disposto a fazer este esforço por ti e pelo que resta de amor á nossa família e á tua Mãe. Vou tentar estar mais presente. Vou tentar esquecer e tudo porque vocês são demasiado importantes para mim. Andy, confesso que não esperava esta mudança, esta tentativa por parte do Pai. Os dias seguintes foram um martírio. Ainda não tinha perdoado a Mãe e evitava falar com ela, ou seja, apenas falava o essencial. Passei a estar mais tempo com o Pai! Passei a ir ao cinema com ele, a ir á empresa com ele, ensinei-o a patinar e o Natal passou-se. O tempo passou, Andy e acabei por perdoar a Mãe e agora, será que foi o mais certo!? Não sei. Só a passagem do tempo é que mo poderá dizer mas adianto-te já querido Andy de que o Pai ausente de que te descrevi anteriormente, tanto neste desabafo como no dos outros dias, esse Pai após alguns anos voltou a ser o que era aquando a descoberta da traição mas desta vez por minha causa. Desta vez, a causa da sua dor e mágoa sou eu, a sua querida e adorada Cat! Andy, que posso eu fazer!? Diz-me!!! Eu quero deixar de me cortar, eu quero deixar de me isolar mas ainda não estou curada, ainda não passou tudo nem irá passar. Tudo ficará registado na minha memória. Tudo mesmo, Andy. Apenas o que mudará é o facto de deixar esses monstros para trás e pensar num futuro melhor mas principalmente, neste presente que me está a escapar por entre dedos e tão rápido que ele caminha para bem longe de mim passando assim a mais uma memória dolorosa do que os monstros causaram em mim. São apenas cicatrizes, Andy. "
(continua)
por Al*, inventado!
2 comentários:
Adorooo! COntinua!
amo, continua!
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