" Ainda não me tinha passado o acesso de raio. Saí do telhado e desci as escadas até ao 2ºandar duas a duas. Não sei como consegui. Nem me perguntem porquê. Dirigi-me de imediato, assim que cheguei ao 2ºandar, ao escritório do Rui. E já se encontrava só ele.
Eu: Bom dia, Chefe. Eu gostaria imenso de que me fornecesse umas informações sobre duas pessoas que se encontravam no seu escritório á coisa de meia-hora.
Rui: Quem é que esteve aqui no meu escritório? Eu apenas saí meia-hora porque a minha mulher me ligou e estava com problemas …
Eu, perdendo já a calma: Fouda-se. Não quero saber quais os problemas da sua mulher!
Ele ficou parvo a olhar para mim e apenas disse: Então que quer saber?
Eu: Já deve saber que a minha mãe voltou!
Rui: Sim, tomei conhecimento disso pelas cusquices desta empresa. Mas não a vi.
Eu: E que mais ouviu?
Rui: Que não vinha sozinha. E…
Eu: Sim, de facto não vinha sozinha. Deixaram-me um recado na minha secretária para me dirigir aqui ao seu escritório e eu vim logo a correr porque bem assinaram com o seu nome! Não lhe vou estar aqui a contar coisas sobre a minha vida privada mas gostaria que não deixasse que o homem que estava com a minha mãe me perturbasse aqui no trabalho! Se ele aqui a aparecer, não o deixe entrar!
Rui: Mas não posso fazer isso!
Eu: Porque? Você pode fazer isso porque eu estou a pedir para a minha segurança pessoal.
Rui: Os rumores dizem que a tua mãe está a deixar tudo o que seja em nome dela … em nome daquele homem! Não posso impedi-lo de entrar sendo ele sócio desta empresa, Maria.
Eu: Tem a certeza disso?
Rui: Ter não tenho. Como sabes, tenho superiores. Só o Director é que te pode esclarecer, Maria.
Eu: A minha mãe não me pode fazer isto! Eu sou filha dela. O que é que aquele homem é à minha mãe para ela estar a passar as coisas dela para o nome dele!! Não ouviste mais nada?
Rui: Ahm, não sei se vais gostar de saber.
Eu: Mas importaste de me dizer!?
Rui: Dizem por aí, que a tua mãe tem um caso com esse homem.
Eu: Não pode! Não pode!
Saí do escritório. Fula. Precisava de explicações. Pedi o telemóvel fixo á secretária do Rui, digitei o número de telemóvel da minha mãe umas três vezes e dessas três, errei. Acalmei-me. Respirei fundo e lá consegui marcar o número certo.
Mãe: Olá, filha. Ainda bem que ligaste. Então já saíste da empresa?
Eu: Cala-te e ouve-me. Á hora de almoço, vens ter comigo á morada que te dei. E vens mesmo. Mas sozinha! Preciso de explicações. E rápido! Ouvi uns rumores aqui na empresa e digamos que não estou muito feliz, minha mãe.
Nem deixei ela argumentar. Espetei com o auscultador no telefone com tal força que por momentos achei que o tinha rachado. Eram 11h. Faltava uma hora e meia para ir almoçar. Estava demasiado nervosa. Não sabia o que fazer. Não encontrava concentração para trabalhar. Pedi ao Rui para sair mais cedo e andei a deambular pela cidade. Enverguei por ruas que não fazia ideia que existiam. Ia tendo um acidente porque os meus pensamentos andavam longe. O tempo passou tão mas tão devagar que por momentos, pensei em ir já ter com a minha mãe e esclarecer já as coisas mas respirei fundo.
Tanto deambulei que fui dar a casa inconscientemente. Estacionei o carro e entrei em casa. E lá estava o Bruno. Nos mesmo preparos em que o abandonei. Assim que o vi, abracei-o e desatei a chorar. Ele simplesmente abraçou-me e não fez perguntas. Não era preciso. Ele já adivinhava o que se teria passado. Entretanto tocam á campainha.
Eu, limpando as lágrimas: Amor, é a minha mãe e preciso ..
Bruno: O que? Aserio? Oh god! Agora percebo!! Sim, já sei. Vou vestir-me e quando chamares por mim eu venho a correr salvar-te, pode ser?
Eu, puxando-o para mim: Sim, pode! Agora, beija-me e deseja-me boa sorte.
Assim o fez. Abandonou a sala e eu fui abrir a porta.
Apenas fez o seu olhar de ‘perdoa-me’. Ia a entrar e eu impedi-lhe a sua passagem perguntando: Só entras se me prometeres que só me vais disser a verdade? Apenas a verdade! Só preciso disso, mãe. Já chega de mentiras! Sou tua filha, por amor a deus.
Mãe: Sim. Está na hora de saberes tudo. Então, confias e deixas-me entrar?
Eu: Sim, confio. Entra então.
Mantive-me atrás dela a observá-la. A seguir os seus olhos. Eu sabia que ela ia analisar o meu apartamento de cima a abaixo. Sentou-se no sofá e saiu-se com esta.
Mãe: Devias ter pintado a casa. Este branco não tem nada a ver contigo, filha.
Eu: Mãe, não vamos falar sobre o que devia ou não devia ter feito a esta casa. É minha! Eu é que sei. Então, eu chamei-te para me contares a verdade. Podes começar.
Mãe: não sei por onde começar, querida. É tão complicado.
Eu: descomplica e começa pelo princípio. Toda a mentira tem um princípio e uma razão e aposto que a tua foi proteger-me … como sempre.
Mãe: Não sejas irónica!
Eu: Primeiro, explica-me donde raio caiu aquele homem? Do céu, não foi de certeza.
Mãe: Ele trabalha para uma espécie de máfia e agora não me interrompas e eu digo logo tudo de uma vez. Quando tinha vinte e tal anos eu drogava-me e quando conheci o teu pai, este era um simples fornecedor. Já andava metido naquela vida á imenso tempo e ganhava imenso dinheiro e nunca mas nunca foi apanhado pela polícia. Apaixonamo-nos e ele obrigou-me a fazer reabilitação e assim foi. Apesar de ter ficado bem não deixamos este negócio. Vendia mas não consumia. E fiquei grávida de ti. A coisa complicou-se. Decidimos criar-te e tentar manter este negócio sujo mas sabíamos á partida que irias ser prejudicada e podias ser usada contra nós caso algo acontecesse. E chegou o dia em que decidimos saltar do barco. Mas uma coisa que não sabíamos é que neste mundo da droga quando se entra no barco é difícil saltar são e salvos.
Eu: Eu não acredito, mãe! Tanta moral e sermão para depois descobrir que tu consumias e o pai vendia.
Mãe: Acredita que estamos arrependidos. Eternamente arrependidos. Estava grávida de 7 meses. Estavas quase a nascer e o teu pai decidiu confrontar o chefe. Como era de esperar o chefe não aceitou a sua tentativa de saltar fora e por isso, fez de mim refém. E sujeitou o teu pai a quase uma missão impossível! Se conseguisse fazer passar de Marrocos para Portugal uma x quantidade de heroína, nós estávamos livres. O teu pai concordou. Ele sabia que se não concordasse poderíamos ser logo eliminados.
O teu pai tinha que passar trinta e tal kg de droga numa carrinha. Não sei como ele o fez. Só sei que passado uma semana soltaram-me.
Eu: como ele o fez?
Mãe: Não faço a mínima ideia! Ele não me quis disser, filha. E a primeira vez que o vi depois da viagem ele estava magro, muito magro e bastante cansado.
O local onde estava o centro da operação, uma fábrica velha que agora já nem existe, saímos dali o mais rápido possível pois não podíamos fazer com que eles mudassem de ideias. Estávamos já no carro e ouvimos um tiro. Eu levei um tiro. Não foi nada de grave pois passou de raspão no braço mas com o susto entrei em trabalho de parto. O teu pai levou-me imediatamente para o hospital mais próximo. Nesta altura, nós vivíamos no Porto e assim que nasceste decidimos mudar-nos para Lisboa. Tudo corria às mil maravilhas até tu fazeres 5 anos. No dia do teu aniversário, apareceu um Homem lá em casa. Este homem que te andou a perseguir. Vinha em nome do Chefe. Só neste dia percebi como o teu pai conseguiu passar tanta droga … Simples, não passou. Fez um pacto. Deu tudo o que tínhamos ao Chefe mas ficou com a droga. O que deu ao Chefe durou os teus 5 anos e agora ele mandou o Sr.Fernando buscar o que lhe pertencia. O teu pai apenas disponibilizou metade da droga e o Chefe pagou-nos o que equivalia a 15 anos de vida teus. Ou seja, passados esses anos, ele receberia o resto. Okay, não tem sentido. Já percebi pela tua cara mas o teu pai e o Chefe eram na altura os melhores amigos. Caso o teu pai vende-se, o dinheiro ia para o Chefe. Quando soube deste pacto fiquei fula. Este pacto significava ficar ligada àquele mundo e o que eu mais queria era não ter mais nada a ver com ele. Saí de casa com o dinheiro suficiente para te criar até aos teus 15 anos. Não faço ideia como o teu pai se safou. Não sei mesmo. Só sei que passado 15 anos, voltei a ver o teu pai. Ele implorou para que volta-se para casa mas eu não aceitei. Já não o amava e o estado dele era lastimável. Tinha caído na tentação e consumia. Ele pensou que eu não ia notar … eu que passei um ano a consumir, não ia notar na sua aparência. Ofendido pelo facto de não o aceitar de novo desapareceu. Nunca mais o vi. Até ao dia em que fugi. Até ao dia em que foste mãe. O teu pai soube de tudo e apareceu no hospital. Esteve contigo.
Eu: Vocês só se metem em sarilhos. Oh meu deus. O Bruno viu-o? Eu estou fula. Não penses que por não gritar contigo é porque estou a aceitar. Vocês erraram e não …
Mãe: Posso acabar? É que se não perco a coragem! Interpretando esse teu silêncio, vou continuar. Não, o Bruno não o viu. Nem a mim! O teu pai voltou para me pedir ajuda financeira. Estava atoalhado de dívidas. Ele tinha voltado para o Porto e continuava no mesmo mundo. Eu deixei-te. Não aguentava a tua dor e deixei-te para salvar o teu pai. O Chefe tinha lhe dado o prazo de um ano para ele pagar tudo. Este tempo todo estive no Porto a negociar. Como não tínhamos a quantia que o Chefe exigia andamos a calcular os nossos bens e as minhas acções na empresa e o que vale é que chega para lhe pagar. Por isso, ando a passar tudo para o nome do Chefe. Tudo o que é meu está a ser passado para o nome dele. É a única maneira de salvar o teu pai. Este tempo que tive fora estavas a ser vigiada pelo Sr.Fernando. Ele ia tirando fotografias e mantinha-te debaixo de olho. O Chefe tinha-te debaixo de olho caso nós decidíssemos ir á Policia. Foste viajar e o Sr.Fernando foi convosco sendo este, os olhos do Chefe. Aquela encrenca que arranjaste em Amsterdão foi paga pelo Chefe mas tinha sido paga logo ao inicio mas ele decidiu manter-te presa.
Eu: Oh Mãe , QUE EMBRULHADA. FOUDA-SE, VOCES NÃO EXISTEM. NO QUE SE FORAM METER! NEM EU FAÇO TAL COISA. OH MEU DEUS. E AGORA?
Mãe: Agora, filha. Eu e o teu pai vamos ficar sem nada. Tu estás safa porque trabalhas na empresa mas eu vou ter que arranjar outro emprego.
Eu: Vais ficar sem casa?
Mãe: Sim, vou. Vou ficar sem tudo, filha. Só me restas tu, o teu perdão e bem … o teu pai.
Eu: Quando a transferência dos nomes ficar completa, vens morar cá para casa. O pai está limpo?
Mãe: Não, filha. Continua com a mesma merda de vicio.
Eu: Então, pago-lhe a clínica.
Mãe: Tens a certeza, filha?
Eu: Sim, tenho. Onde está o pai?
Mãe: O teu pai está no carro!
Eu: O QUE? ELE ESTÁ LÁ EM BAIXO? ELE ESTÁ AQUI?
Mãe: Sim, filha está!
Saí de casa a correr. Desci as escadas duas a duas … nem me dei ao trabalho de ir pelo elevador. Precisava de o ver. De o conhecer. De o sentir. Era o meu pai. Finalmente, o meu pai!
Assim que vi o carro, abrandei o passo. Tive medo. De repente, assolou-me uma sensação de que não iria ser bem recebida ou de que iria sofrer com o estado do meu pai. Á medida que me aproximava do carro já via a sua forma dentro do carro. Bati no vidro. Era meio careca. Tinha bigode e tatuagens nos braços. Muito magro. As suas mãos tinham feridas em carne viva. Baixou o vidro e disse, amavelmente: Posso ajudá-la?
Eu: Sim, pode. Poderia abraçar a sua filha, se não se importar.
Ele ficou inerte a olhar-me. Observou-me de cima a abaixo e depois viu a mãe a vir em nossa direcção e aí ele percebeu. Abriu a porta e abraçou-me. Abraçou-me com força e murmurava vezes sem conta ‘minha filha, minha filha’.
Eu apenas tinha a minha cabeça a mil e chorava de alegria. Não o larguei por um segundo. Não acreditava que após tantos anos, ele estava ali, comigo. Além de tanto tempo, após por tudo o que ele passou, ele estava ali comigo, vivo. E não parava de sorrir.
(continua e desculpem ser tão grande!)



4 comentários:
Amei!!
Afinal o meu palpite estava mal :p
Gostei muito *
E assim grande é bem melhor :D
Ainda bem que está grande +.+
AMEI!
adorei :D
Enviar um comentário