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sábado, 3 de setembro de 2011

desassossego de alma parte XIX

" É uma oleografia sem remédio. Fito-a sem saber se vejo. Na montra há outras e aquela. Está ao centro da montra do vão de escada.

Ela aperta a primavera contra o seio e os olhos com que me fita são tristes. Sorri com brilho do papel e as cores da sua face são encarnado, O céu por trás dela é azul de fazenda clara. Tem uma boca recortada e quase pequena por sobre cuja expressão postal os olhos me fitam sempre com uma grande pena. O braço que segura as flores lembra-me o de alguém. O vestido ou blusa é aberto num decote ladeado. Os olhos são realmente tristes: fitam-me do fundo da realidade litográfica com uma verdade qualquer. Ela veio com a primavera. Os seus olhos tristes são grandes, mas nem é por isso. Separo-me de defronte da montra com uma grande violência sobre os pés. Atravesso a rua e volto-me com uma revolta impotente. Ela segura ainda a primavera que lhe deram e os seus olhos são tristes como o que eu não tenho na vida. Vista à distância, a oleografia tem afinal mais cores. A figura tem uma fita de cor de mais rosa contornando o alto do cabelo; não tinha reparado. Há em olhos humanos, ainda que litográficos, uma coisa terrível: o aviso inevitável da consciência, o grito clandestino de haver alma. Com um grande esforço ergo-me do sono em que me molho e sacudo, como um cão, os húmidos da treva de bruma. E por cima do meu desertar, numa despedida de outra coisa qualquer, os olhos tristes da vida toda, desta oleografia metafísica que contemplamos à distância, fitam-me como se eu soubesse de Deus. A gravura tem um calendário na base. É emoldurada em cima e em baixo por duas réguas pretas de um convexo chato mal pintado. Entre o alto e o baixo do seu definitivo, por sobre 1929 com vinheta obsoletamente caligráfica cobrindo o inevitável primeiro de Janeiro, os olhos tristes sorriem-me ironicamente. "

excerto de Livro do Desassossego de Bernardo Soares por Fernando Pessoa

domingo, 31 de julho de 2011

desassossego de alma parte XVIII


« Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores.
Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino ... »

Livro do Desassossego de Alma por Bernardo Soares de Fernando Pessoa

terça-feira, 21 de junho de 2011

desassossego de alma parte XVII



« ...  A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos. »

de Bernardo Soares por Fernando Pessoa

domingo, 19 de junho de 2011

desassossego de alma parte XVI

     « Escrever, sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda. Porém eu perco-me sem alegria, não como o rio na foz para que nasceu incógnito, mas como o lago feito na praia pela maré alta, e cuja água sumida nunca mais regressa ao mar »

de Bernardo Soares por Fernando Pessoa

Perco-me por entre palavras de desgosto, ânsia e tédio de Fernando Pessoa! Não posso mais com este ser que se questiona como a Terra dá a volta a sim própria - sem motivo aparente!
Não consigo um mínimo de concentração ou até mesmo vontade para estudar. Não consigo simplesmente. Estava eu no meu quarto, de janela aberta com intuito de me manter lúcida apenas como aquele barulho de fundo e depois tinha o pc com uma colectânea espectacular cujo som foi colocado no mínimo para também ser só assim como música de fundo até que Ricardo Reis provocou em mim, um sono indiscritivel. Adormeci por meia-hora se não me engano e soube mesmo bem e no jeito de brincadeira chamei a isto - consolidar a matéria! Tentei voltar ao estudo mas desta vez da Mensagem. Assim que li a primeira frase os meus olhos teimaram em fechar! Levantei-me e decidi que precisava de uma distracção ou até mesmo de algo que me motivasse! Precisava e preciso de um motivo, de uma vontade proveniente do meu profundo ser para lutar. Estou nesta inércia que até mete nojo e não consigo sair dela. Estou presa como uma melga está numa teia de aranha e estou prestes a ser comida pela aranha. Preciso urgentemente de um não-sei-quê que me faça mover e manter-me concentrada. Estou desolada comigo própria e decidi vir aqui escrever qualquer coisa, desabafar ao fim de contas e agora vou voltar. Vou enfrentar o touro pelos cornos e se cá voltar ainda hoje considerem a minha tarefa como falhada! Sinceramente, a minha cabeça já fui mais bem mandada e com isto o meu corpo também mas agora parece que ganharam vida própria e que Eu não tenho voto na matéria no que toca a decisões que decidem uma vida, um caminho diferente - aquele que nós queremos e ansiamos!
por Al*

hora absurda

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...

excerto Hora Absurda de Fernando Pessoa

quinta-feira, 26 de maio de 2011

desassossego de alma parte XV




«    Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco. »

de Bernardo Soares por Fernando Pessoa


domingo, 15 de maio de 2011

desassossego de alma parte XIV

" 35.
     ... e um profundo e tediento desdém por todos quantos trabalham para a humanidade, por todos quantos se batem pela pátria e dão a sua vida para que a civilização continue... um desdém cheio de tédio por eles, que desconhecem que a única realidade para cada um é a sua própria alma, e o resto - o mundo exterior e os outros - um pesadelo inestético, como um resultado nos sonhos de uma indigestão de espírito.

     A minha aversão pelo esforço excita-se até ao horror quase gesticulante perante todas as formas de esforço violento. E a guerra, o trabalho produtivo e enérgico, o auxílio aos outros... tudo isto não me parece mais que o produto de um impudor.
    
E, perante a realidade suprema da minha alma, tudo o que é útil e exterior me sabe a frívolo e trivial ante a soberana e pura grandeza dos meus mais vivos e frequentes sonhos. Esses, para mim, são mais reais. "

de Bernardo Soares por Fernando Pessoa

sábado, 23 de abril de 2011

desassossego de alma, parte XIII


"Tanta inconsequência em querer bastar-me! Tanta consciência sarcástica das sensações supostas! Tanto enredo da alma com as sensações, dos pensamentos com o ar e o rio, para dizer que me dói a vida no olfacto e na consciência, para não saber dizer, como na frase simples e ampla do Livro de Job, "Minha alma está cansada de minha vida!"

por Bernardo Soares de Fernando Pessoa

terça-feira, 29 de março de 2011

desassossego de alma, parte XII




 « Conhecer-se é errar, e o oráculo que disse «Conhece-te» propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que o da Esfinge »

de Bernardo Soares por Fernando Pessoa
por Al*


Quando pensamos que já descobrimos todas as facetas de nós próprios é quando caí outra máscara invisivel e conheces 'outro' monstro. Bem-vindo, darling and be careful

quarta-feira, 16 de março de 2011

desassossego de alma, parte XI

363

   « Nós não podemos amar, filho. O amor é a mais carnal das ilusões. Amar é possuir, escuta. E o que possui quem ama? O corpo? Para o possuir seria preciso tornar nossa a sua matéria, comê-lo, incluí-lo em nós... E essa impossibilidade seria temporária, porque o nosso próprio corpo passa e se transforma, porque nós não possuímos o nosso corpo (possuímos apenas a nossa sensação dele), e porque, uma vez possuído esse corpo amado, tornar-se-ia nosso, deixaria de ser outro, e o amor, por isso, com o desaparecimento do outro ente, desapareceria... »

de Bernado Soares por Fernando Pessoa

sexta-feira, 11 de março de 2011

desassossego de alma, parte X


(40)

     « Sinto-me às vezes tocado, não sei porquê, de um prenúncio de morte... Ou seja, uma vaga doença, que se não materializa em dor e por isso tende a espiritualizar-se em fim, ou seja, um cansaço que quer um sono tão profundo que o dormir lhe não basta - o certo é que sinto como se, no fim de um piorar de doente, por fim largasse sem violência ou saudade as mãos débeis de sobre a colcha sentida.

     Considero então que coisa é esta a que chamamos morte. Não quero dizer o mistério da morte, que não penetro, mas a sensação física de cessar de viver.

     A humanidade tem medo da morte, mas incertamente; o homem normal bate-se bem em exercício, o homem normal, doente ou velho, raras vezes olha com horror o abismo do nada que ele atribui a esse abismo. Tudo isso é falta de imaginação. Nem há nada menos de quem pensa que supor a morte um sono. Por que o há-de ser se a morte se não assemelha ao sono? O essencial do sono é o acordar-se dele, e da morte, supomos, não se acorda. E se a morte se assemelha ao sono, deveremos ter a noção de que se acorda dela. Não é isso, porém, o que o homem normal se figura: figura para si a morte como um sono de que não se acorda, o que nada quer dizer. A morte, disse, não se assemelha ao sono, pois no sono se está vivo e dormindo; nem sei como pode alguém assemelhar a morte a qualquer coisa, pois não pode ter experiência dela, ou coisa com que a comparar.

     A mim, quando vejo um morto, a morte parece-me uma partida. O cadáver dá-me a impressão de um trajo que se deixou. Alguém se foi embora e não precisou de levar aquele fato único que vestira. »

- de Bernardo Soares por Fernando Pessoa

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

desassossego de alma, parte IX

(68)
« O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões - a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim »
Livro de desassossego de alma por Bernardo Soares de Fernando Pessoa

domingo, 16 de janeiro de 2011

desassossego de alma, parte VIII


(229)
« Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz.
A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo.
Que coisa tão reles e baixa que é a vida! Repara que para ser baixa e reles basta não a quereres, ser-te dada, nada depender da tua vontade, nem mesmo da tua ilusão da tua vontade.
Morrer é sermos outros totalmente. Por isso, o suicídio é a cobardia, é entregarmo-nos totalmente à vida »


Livro do Desassossego de Alma de Bernardo Soares por Fernando Pessoa

Obs: por vezes, refugiu-me nele, por vezes .. ler Fernando Pessoa torna-me mais verdadeira, faz me sentir mais verdadeira, por isso, coloco aqui excertos , segundo a minha vontade;

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

desassossego de alma, parte VII

(10)
    
« E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei »

Livro do Desassossego de Alma de Bernardo Soares de Fernando Pessoa

sábado, 25 de dezembro de 2010

desassossego de alma, parte VI

(194)

« Há um grande cansaço na alma do meu coração. Entristece-me quem eu nunca fui, e não sei que espécie de saudades é a lembrança que tenho dele. Caí contra as esperanças e as certezas, com os poentes todos »


Livro do Desassossego de Bernardo Soares por Fernando Pessoa

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

desassossego de alma, parte V

(287)

« Adoramos a perfeição, porque a não podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito »

Livro de Desassossego de Alma de Bernardo Soares por Fernando Pessoa

domingo, 12 de dezembro de 2010

desassossego de alma, parte IV


(48)
     « Para compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la.
     A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir »


Livro do Desassossego de Bernardo Soares por Fernando Pessoa

domingo, 28 de novembro de 2010

desassossego de alma, parte III


« Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar »

Livro do Desassossego de Bernardo Soares por Fernando Pessoa

domingo, 21 de novembro de 2010

desassossego de alma, parte II


« São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literariamente fui, procuro explicar a mim próprio como cheguei aqui»


Livro do Desassossego de Bernardo Soares por Fernando Pessoa

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

desassossego de alma, parte I


« Tenho que escolher o que detesto - ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.
Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir .. misturo uma coisa com outra »

Livro do Desassossego de Bernardo Soares,Fernando Pessoa